O metro quadrado da tragédia está pela hora da morte. O nómada digital não aterra em Lisboa para apanhar sol. Aterra para comprar a nossa desgraça. A saudade deixou de ser um buraco no estômago. Passou a ser luxo imobiliário.
No passado, a saudade era a única riqueza de quem não tinha onde cair morto. Hoje, é a caução de quem compra quarteirões a pronto. O promotor percebeu o truque. A miséria, bem esfregada e com um azulejo na fachada, vale milhões. A tristeza é uma matéria-prima cobiçada. Vende-se a melancolia de um povo da mesma forma que se vende chão radiante ou ar condicionado. O estrangeiro não quer apenas uma cama. Quer o privilégio de dormir dentro da nossa derrota histórica.
O problema é que o capital exige uma saudade esterilizada. A dor real cheira a humidade, a lixívia e a couve cozida. A saudade de consumo tem de cheirar a sabonete artesanal. O apartamento reabilitado é uma fraude brilhante. Madeira nórdica por dentro, bancadas de pedra lisa, Wi-Fi de última geração.
A casca do edifício, porém, fica intocada. É taxidermia urbana. Empalha-se o prédio, arrancam-se as tripas, deixa-se a pele a fingir que ainda sofre. Com a saudade por decoração. Uma banda sonora de fado a tocar baixinho enquanto o americano despeja a mala. O turista quer a aura da tragédia, mas recusa-se a carregar o caixão.
O amor falha-nos sempre, mas a economia é muito pior. O capital não tem coração, mas tem a mania que é sensível. E a saudade sempre é a presença de uma ausência. Pressupõe que falta cá alguém. Requer gente a falhar, a envelhecer, a arrastar os chinelos na calçada, a morrer devagar nos rés-do-chão sem luz de Alfama ou da Mouraria. A ironia final é perfeita. Compra-se a ruína e chama-se a isto investimento.
O que sobra é o eco. Um simulacro impecável. O investidor paga o dobro para habitar o cenário de uma peça que despediu os atores todos. É a execução da penhora final. Liquidámos a casa para pagar as dívidas e, no fim, vendemos a tristeza de a ter perdido. A cidade agora está cheia de gente com muito dinheiro. E não mora lá ninguém.