Só os tristes é que medem tudo. O verdadeiro luxo é não fazer a mínima ideia de quanto se tem, de quanto se gasta ou de quanto se ganha. Mas agora chegou-nos a mania de medir a cultura. Inventámos uma cornucópia chamada “Retorno Social do Investimento”. SROI. Soa a doença de pele apanhada num cruzeiro barato.
O lucro da cultura é zero. A utilidade é a morte da beleza. Um museu que serve para alguma coisa “de útil” é apenas um armazém com melhor iluminação. Mas queremos estatísticas da epifania. Queremos indicadores de desempenho para o deslumbre.
Em Portugal, a medida de excelência sempre foi o “mais ou menos”. O nosso compasso de precisão nacional é o “fica para aí a um quarto de hora”. É um alívio imenso. Mas não. Agora queremos transformar este país na Suíça dos sentimentos. Queremos avaliar o PIB da saudade. Pôr a equidade numa tabela de Excel. A justiça social passa a cotar na bolsa, e o mercado engole tudo com a sua racionalidade de merceeiro.
Tudo tem de ser avaliado. Tudo tem de dar provas de vida económica. Já não há pessoas livres. Há “consumidores de experiências culturais”. A palavra “experiência”, aliás, é uma das maiores ironias desta história toda. Quando se começa a medir a “experiência”, o afecto, a solidariedade, é porque o afecto e a solidariedade já morreram há muito tempo.
Medir o valor de um teatro com dados estatísticos é como tentar medir a saudade com uma régua de plástico. É foleiro. É labrego. E é a prova de que já não sabemos sentir nada sem pedir visto prévio ao Tribunal de Contas. A cultura está a ser asfixiada por gente que sabe o preço de tudo e o valor de rigorosamente nada.
As instituições culturais deviam mandar estes gestores todos dar uma curva. Mas não mandam. Estão entaladas. Cheias de medo de perder as últimas miseráveis gotas de um orçamento seco como passas. Então vergam a mola e marcham ao som da banda. Aceitam o gráfico circular. Tudo bate certo na folha de cálculo. A eficácia é total. Num país de contabilistas a quem a alma não estorva.