O espetáculo de ontem na televisão, aquele embate entre Pacheco Pereira e André Ventura, não foi um debate. Foi uma demolição. Pacheco Pereira, que ainda padece da ilusão de que as ideias têm esqueleto, foi tentar conversar com uma betoneira. A betoneira não argumenta; despeja. E o que despeja é a suprema ficção nacional do “nós” contra “vocês”, as “elites“.
Para o demagogo, “nós” traduz-se sempre por “povo“, e este “povo” nunca é gente; é um instrumento contundente. Um calhau que se atira à cabeça de quem usa advérbios. Em Portugal, a erudição tornou-se uma confissão de culpa e o grunhido uma prova de sinceridade.
A verdade é que é mesmo preciso ter muita falta de vergonha para se usar assim este “povo” em público. Este “povo” não é uma entidade; é um esconderijo. É o sítio para onde os políticos fogem quando têm medo de dizer “eu quero“. No momento em que alguém enche o peito para anunciar “o que o povo quer“, o que está a fazer é ventriloquia: enfia a mão no rabo de uma abstracção e obriga a bonecada a repetir o que o mestre deseja.
O populismo, entre nós, não é uma ideologia; é um problema de higiene verbal. É o uso desbragado de palavras que já não servem para nada, como “puro“, “corrupto” ou “nós“. Quando se começa a falar da “pureza do povo“, a primeira coisa que me apetece fazer é ir lavar as mãos. A pureza, na política, é sempre o prelúdio de uma nódoa que não sai com lixívia.
A gramática de André Ventura é uma interjeição que subiu ao poder. É um grito que se cansou de esperar pelo resto da frase. É um “basta” que decidiu que o ponto de exclamação é o único sinal de pontuação digno de um homem a sério, dispensando as vírgulas, as reticências e, sobretudo, as orações subordinadas. A subordinação, para esta sintaxe de taberna, é uma mariquice do sistema: implica paciência, hierarquia e a capacidade de esperar que uma ideia termine antes de se começar a bater na mesa. No mundo do Chega, a frase morre no sujeito e o predicado é sempre um soco.
O maior golpe retórico da nossa direita zangada é a invenção dos “portugueses de bem“. É uma expressão que funciona como um espelho de feira: deforma tudo o que toca para que o observador se sinta mais alto e mais magro. O uso do advérbio “bem” como um distintivo de casta é de uma genialidade foleira. Não se explica o que é o “bem“; o “bem” é apenas o contrário de quem nós decidirmos, naquele momento, que está a fazer “mal“.
É uma tautologia moral que permite a qualquer um sentir-se virtuoso sem ter de praticar uma única virtude, bastando-lhe partilhar um ódio por quem não veste a mesma camisola. É o “nós” contra o “eles” reduzido a pancadaria de claque de futebol, onde a gramática serve apenas para identificar quem é que leva porrada.
Esta linguagem é perigosa porque é contagiosa. É muito mais fácil gritar do que argumentar, e é infinitamente mais relaxante insultar do que compreender. O populismo percebeu que a língua portuguesa, com as suas saudades e os seus vagares, estava a precisar de um chicote. Ora, o chicote não precisa de gramática; precisa apenas de estalar. Estamos a assistir à transformação do debate público numa sucessão de onomatopeias de indignação. É a vitória do “pum“, do “zuz” e do “trás” sobre a inteligência da frase bem construída.
Gostar destas soluções rápidas é um exercício de ciúme retroactivo. O eleitor do Chega não procura a felicidade, mas sim a prova de que o sistema o traiu primeiro. É um amor sem afecto, erguido sobre uma fronteira de rancor que nos separa de quem ainda insiste em ter esperança. Serve apenas para garantir que a nossa solidão é partilhada por quem grita mais alto.
A língua portuguesa está a ser assaltada por quem diz que a quer salvar — e o Chega não é um partido. É um erro de ortografia.