Acreditar

A Constituição de 1976 tem duzentos e noventa e seis artigos. Sei isto porque fui ver, o que já me coloca numa minoria estatística considerável. Hoje, lê-se como uma carta de amor escrita por quem já não esperava resposta.

O artigo 65.º é, de todos, o mais cruel. Diz ele, com a solenidade de quem dita um testamento, que todos têm direito a uma habitação de “dimensão adequada“, em “condições de higiene e conforto“, que preserve a “intimidade pessoal” e a “privacidade familiar“. É um parágrafo bonito. Tem o ritmo de uma promessa de casamento e a solidez de uma miragem.

Cinquenta anos depois, a “dimensão adequada” foi traduzida pela gramática do mercado para o vernáculo da miséria: é um T0 a oitocentos euros, um buraco sem luz onde a intimidade se resume a ouvir o vizinho a tossir através de paredes feitas de gesso cartonado.

O conforto é uma manta de polar comprada em saldos. E a privacidade é o que se conseguir arranjar a uma hora de autocarro do emprego que paga o privilégio de ter um tecto que, tecnicamente, pertence ao banco ou a um fundo de investimento.

O problema não é a Constituição. O problema nunca foi a Constituição. O problema somos nós, que descobrimos ser muito mais fácil celebrar um documento do que cumpri-lo.

Amanhã, eu também vou celebrar. Tenho o maior respeito por quem escreveu aquele documento. Era uma geração que ainda acreditava que as palavras certas podiam mudar o mundo.

Às vezes, até eu acredito. Mas depois lembro-me de que a carta estava endereçada a nós.


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