Liberdades

A moda do “liberalismo” em Portugal é uma ironia perfeita: num país que tem pânico a decidir o que quer para o jantar, decidimos subitamente abraçar a ideologia da escolha individual. Quando observada de perto, a nossa versão de liberdade divide-se em três estados de decomposição.

Primeiro, temos a Liberdade de Esquecer: é a mais praticada, e consiste no talento para assobiar para o lado perante o passado, e tratar a História como uma multa que já prescreveu.

Segue-se a Liberdade de Consumir: a faculdade de trocar o destino do país por uma televisão a prestações, onde a democracia se mede pela largura do ecrã e não pela profundidade do pensamento.

Por fim, resta a Liberdade de Desistir. É a liberdade mais pura e mais quente que temos. É o direito de nos sentarmos à beira-mar a ver o país a desfazer-se, com a dignidade de quem já não espera nada de ninguém.

Não é uma rendição; é um luxo. É a liberdade de quem percebeu que, depois de se abrir a porta da gaiola, o passarinho prefere ficar cá dentro a olhar para o céu, só para não ter de aprender a voar outra vez.


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