A República
da Cunha

O PREC durou dezoito meses e produziu cinquenta anos de literatura comemorativa. Esta proporção, por si só, merece atenção. É como se um espirro de dezoito segundos exigisse meio século de análises clínicas sobre a composição do muco. Portugal tem esta paciência bovina para a exegese do próprio caos. Há até quem goste de situar o PREC como o Big Bang da nossa desordem, o momento em que a loiça se partiu toda e nós, coitadinhos, nunca mais conseguimos colar as peças. É uma história conveniente e, como quase tudo o que é conveniente em Portugal, é falsa.

Houve um momento, antes de nos perdermos em assembleias de voto e comunicados de junta, em que acreditámos piamente que o futuro tinha acabado de ser inventado em Lisboa.

Foram seis dias de suspensão absoluta, uma espécie de sábado de aleluia que se recusava a dar lugar ao domingo. Entre aquela quinta-feira de cravos e a quarta-feira do primeiro de maio, Portugal foi o único país do mundo onde o tempo não avançava, apenas flutuava.

Andava-se na rua com a mesma cara de quem acaba de ganhar a lotaria e ainda não teve coragem de ir conferir os números. Não se falava de política; falava-se de liberdade, como se fosse uma marca de detergente que finalmente tinha chegado às mercearias e prometia lavar todas as nódoas do passado. O país cheirava a pólvora fria e a esperança fresca.

Mas os calendários voltaram a funcionar e descobrimos que uma democracia, afinal, dava muito mais trabalho do que uma revolução. A inocência ruiu quando percebemos que a liberdade não era um estado de graça permanente, mas um condomínio mal gerido onde todos queriam ser o administrador, mas ninguém queria pagar a quota.


Na verdade, entre abril de 1974 e novembro de 1975, o país não viveu uma revolução; viveu uma disputa de condomínio elevada à categoria de epopeia. Foi a descoberta súbita de que a autoridade em Portugal era feita de gesso cartonado. As comissões de trabalhadores que saneavam directores não estavam a seguir o “sentido da História“, essa abstração que os intelectuais usam para não terem de falar de pessoas. Estavam a ajustar contas. Estavam a sanear o engenheiro que lhes tinha negado um dia de folga em 1969 ou o chefe de secção que tinha uma pronúncia demasiado fina para a dureza dos tempos.

Por instantes, o saneamento substituiu o futebol como desporto nacional: uma mistura de justiça social com o prazer indescritível de ver o vizinho de cima a carregar as caixas para o carro. Foi o momento em que a mesquinhez portuguesa se vestiu de camuflado e se sentiu, finalmente, importante.

Diz-se que o PREC destruiu as instituições. É um erro. Não se pode destruir o que nunca foi construído. A nossa arquitectura institucional é, sempre foi, uma arquitectura de pessoas, e não de regras. Em Portugal, a casa nunca teve fechadura; teve sempre um porteiro. É a distinção crucial que nos define como povo e como desgraça.

Uma fechadura é impessoal. É fria. Se tens a chave, entras; se não tens, ficas de fora. Uma fechadura não quer saber quem foi o teu avô, onde é que andaste na escola ou se és um “gajo porreiro“. A fechadura é o elemento base da modernidade e da responsabilidade. Mas nós, os portugueses, detestamos a impessoalidade das máquinas. Preferimos o porteiro. O porteiro é humano. Com o porteiro pode-se falar. Ao porteiro pode-se dar uma gorjeta, pedir um jeitinho, ou explicar que “estamos aí com um problema que se resolvia num instante“.


A ditadura de Salazar não foi um sistema de fechaduras blindadas; foi um regime de porteiros mal-encarados que decidiam quem entrava com base na árvore genealógica ou na recomendação do bispo. Marcello Caetano tentou ser um porteiro que lia o Le Monde, mas o uniforme já lhe ficava largo.

O 25 de Abril não instalou uma fechadura na porta da República. Limitou-se a mudar os porteiros e a dizer que, a partir de agora, a entrada era livre e a festa era para todos – desde que não tivesses as mãos demasiado limpas ou o apelido demasiado sonoro. Introduziu-se a ideia de que a porta não precisava de fechadura porque a própria ideia de propriedade era uma ofensa. No fundo, apenas mudou o critério de exclusão: em vez de se barrar o “zé ninguém“, barra-se o “queque“.

Nos cinquenta anos que se seguiram, os partidos do centro — o PS e o que hoje se chama PSD, com o CDS a fazer de bengaleiro — transformaram-se no Sindicato dos Porteiros. Eles não governam o país; eles gerem a entrada. Criaram uma classe de profissionais do “dá-se um jeito”. Não se tranca a porta nem se abre totalmente; é mantê-la encostada. O Sindicato, no fundo, é uma elite de gestores do acesso, para quem a política é a arte de saber quem é que pode entrar pela porta lateral.

O “Sistema“, que agora tanto se discute, não é uma conspiração de homens de cartola a fumar charutos. É apenas esta lógica de porteiro elevada a sistema operativo. É a convicção profunda de que as regras são para os parvos e que a vida a sério se resolve no átrio, entre um abraço e uma confidência. E é aqui que entra o Chega, não como um invasor, mas como o primeiro gajo que reparou que a porta só estava encostada e que os porteiros estavam todos a dormir a sesta.

O erro trágico da nossa elite política é responder ao grito de “o sistema está podre” com explicações técnicas sobre o funcionamento das instituições. Quem faz isto está a cair na armadilha. Quem responde com “o Estado de Direito funciona segundo o artigo tal” está apenas a confirmar, aos olhos de quem está na rua, que faz parte do sindicato. É o porteiro a explicar ao homem que tem a casa a arder que o regulamento do prédio impede o uso de baldes fora do horário de expediente.


O Chega não é o regresso ao passado. O passado nunca se foi embora porque nós nunca o arrumámos. O Chega é a factura de cinquenta anos de imprecisão, de “vagar” e de uma recusa absoluta em levar a sério a ideia de que um país precisa de fechaduras e não de “gajos que tratam das coisas“. A porta continua aberta. Sempre esteve. O que mudou não foi a arquitectura da casa; foi apenas o nível de ruído de quem quer entrar sem pedir licença.

E dizer que o eleitor do Chega é um nostálgico de Salazar é um erro de palmatória que serve apenas para dispensar o pensamento. É uma conveniência de salão. O que move esta gente não é o passado; é o presente operacional. Os portugueses não são ideólogos. São observadores de balcão. Viram, com uma paciência que roça a santidade, as instituições democráticas a transformarem-se em sociedades de auxílio mútuo para quem já não precisava de auxílio. Perceberam que a República se tornou num condomínio onde as quotas servem para pagar o jardim dos outros. A conclusão a que chegaram não é um delírio; é uma aritmética. Se o Estado não serve para mim, serve para quem?

Feitas estas contas, nem o Chega precisou de montar uma armadilha, nem o seu sucesso eleitoral é um problema de regime. É um problema de canalização. Quando a água não chega para todos, o primeiro que promete partir os canos parece um libertador. E dizer o óbvio é a forma mais barata, e por isso a mais eficaz, de conquistar o poder num país que se habituou a viver de eufemismos.


Continuamos, aliás, a ser o povo da imprecisão. O “vagar” português não é uma virtude contemplativa; é uma forma de evitar a responsabilidade de decidir. Preferimos dizer “vamos aí a um sítio qualquer” do que fixar um destino, porque o destino implica a possibilidade de errar, enquanto o “qualquer lado” é sempre um sucesso estatístico. É o algoritmo por trás da nossa democracia cenográfica: parece sólida nas fotografias dos congressos em Bruxelas, mas desfaz-se se alguém lhe der um pontapé com força suficiente.

Entretanto, a realidade é uma indelicadeza para a qual não fomos treinados. Com a casa já cheia de gente e o telhado a meter água, continuamos a celebrar a madrugada em que decidimos que as fechaduras eram uma chatice burguesa.

É um fim de festa triste, com cheiro a cerveja choca e a fumo de cigarro, onde a única coisa com que todos parecem concordar é que a culpa é sempre do porteiro anterior.

Dá vontade de rir, se não desse vontade de ir embora. Mas ir embora para onde, se levamos o porteiro dentro de nós? Encolhemos os ombros, e ficamos nisto. Derrotados. Na República da cunha.


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