A Vantagem Competitiva de um Coração Partido

A Europa decidiu assassinar a cultura precisamente porque a cultura dá lucro. É a única explicação possível. Dizem os relatórios oficiais que a indústria criativa rende onze euros por cada euro investido. É um escândalo absoluto. Em Bruxelas, um negócio rentável que mete livros e discos é uma ofensa pessoal. O burocrata europeu prefere subsidiar beterrabas.

Vejamos a linguagem da rapaziada. O orçamento da União Europeia para 2028-2034 é uma maravilha de prosa de plástico. A União Europeia quer obrigar-nos a ser competitivos a martelo. Inventaram um “Fundo de Competitividade Europeia”. Tem duzentos e trinta e quatro mil milhões de euros. É dinheiro que chega para comprar o planeta e alcatifá-lo. Dividiram a fortuna em quatro “janelas políticas”. Que merda vem a ser uma janela política? Ninguém sabe. Mas serve maravilhosamente para atirar o dinheiro à rua.

Há dinheiro para a “Transição Limpa”. Há dinheiro para a “Liderança Digital”. Há muito dinheiro para a “Defesa e Espaço”. Mas cortaram os fundos às indústrias criativas. Retiraram as garantias bancárias aos editores independentes, aos músicos, aos teatros. O raciocínio é imbatível. Um sujeito quer abrir uma livraria. Vai ao banco pedir um empréstimo. O banco ri-se na cara dele. A Europa também. Mandam-no concorrer a um programa chamado “AgoraEU”, que soa a marca de iogurte para ajudar ao trânsito intestinal.

O problema dos europeus é a doença da métrica. Adoram medir a “inovação” e a “resiliência”. A cultura não é resiliente. A cultura é a nossa fragilidade escarrapachada. Para Bruxelas, a inovação é estritamente tecnológica. Inovar é criar uma aplicação de telemóvel para mandar vir comida de lixo de bicicleta. Investigar a falência do coração humano não conta. Tiraram a cultura do programa de investigação científica. Acharam que a melancolia não merece bolsas de estudo. É um erro estúpido. A tristeza europeia é a nossa invenção mais sofisticada.

Eles acham que a cultura é um luxo de pessoas ociosas. Uma fatia de bolo para comer ao domingo à tarde. Estão enganados. A cultura é a única coisa que nos impede de darmos um tiro na cabeça numa terça-feira chuvosa.

O pânico destas elites é a tecnologia americana. Querem combater a hegemonia cega de Silicon Valley. A estratégia que inventaram é formidável: cortar o pio aos próprios criadores europeus. Vamos derrotar as plataformas americanas com um silêncio ensurdecedor. Um silêncio caríssimo, devidamente regulamentado e aprovado em comissão. Querem soberania tecnológica, mas esquecem-se de que a máquina não tem ideias. A fibra óptica apenas transmite a miséria humana a uma velocidade mais alta.

Gastam fortunas a preparar a nossa defesa militar. Querem proteger o continente. Para salvar o quê?

O continente vai envelhecer em paz. Seremos uma fortaleza blindada contra o caos. Cada cidadão terá uma bateria de lítio no peito e um painel solar no telhado. Seremos limpos, ecológicos e perfeitamente inúteis. Sem uma canção para ouvir a ver chover. Sem um livro para nos salvar a vida às três da manhã. O amor continuará a ser a mesma merda de sempre, intratável e fatal, mas já ninguém terá as palavras certas para o descrever. Vamos morrer num quarto de hospital de cinco estrelas, cheios de saúde. E rigorosamente sozinhos.


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