A Auditoria
do Vento

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Manuel Alegre em “Trova do vento que passa”

O vento em Portugal é ilegal. Sopra sem licença da câmara. Chove sempre à revelia do Governo. A meteorologia é a única força neste país que se recusa a preencher impressos. O estado português exige que a ventania se faça acompanhar de recibo. 

Vinte e duas mil pessoas sentaram-se em salas sem tecto, com a humidade a infiltrar-se nos ossos, para submeter um formulário com os anexos correctos num portal informático que encrava de quinze em quinze minutos. Este temporal de Janeiro não arrancou apenas telhados. Inaugurou a burocracia da calamidade. Foram vinte e duas mil almas a pedir licença oficial para ter pena de si próprias. Uma cidade inteira a implorar permissão para não chover no corredor. 

A meteorologia pelo menos tem a decência de ser brutal. Não pede desculpa. Já a administração pública, essa, pede que a tragédia seja digitalizada em formato PDF. Com tamanho inferior a dois megabytes. Para caber na base de dados. A família perdeu o carro. Perdeu o telhado. Perdeu o futuro de vista. Mas o problema mais urgente é a palavra-passe. Sem chave única digital, a desgraça não tem valor legal. No país do Simplex, a miséria analógica é uma ofensa à pátria.


A geografia da fragilidade não vem nas cartas meteorológicas, nem se lê nos mapas cor-de-rosa dos telejornais. Desenha-se como uma tapeçaria feita de atestados de pobreza passados à pressa na Junta de Freguesia. Durante décadas, construímos um país inteiro na convicção de que o céu foi, é – e sempre será – azul. O betão é caro. O licenciamento da obra, uma mera sugestão. A marquise de alumínio é a nossa mesquita. É lá que o povo se ajoelha a rezar à deusa da fragilidade. A desgraça, a vir, deveria bater à porta de mansinho a pedir licença. E vir em câmara lenta. É o triunfo do tijolo exposto. Do pladur a segurar a fachada com fé e cuspo. Do telhado de lusalite, carregado de amianto, que sobreviveu intocado aos anos oitenta e aos fundos europeus.

Gerimos este colapso como quem gere uma dor de dentes. Não se vai ao dentista. Toma-se um analgésico rasca. Mastiga-se para o outro lado. Espera-se que o nervo apodreça em paz. E venera-se a palavra «calamidade». A calamidade absolve. Se a culpa é do clima, a culpa morre solteira, virgem e pura. A intempérie limpa os pecados do urbanismo selvagem. Como adoramos o nosso «desenrascanço»! A palavra mais porca do dicionário. O desenrascanço é a glorificação da incompetência. Temos orgulho no defeito. Consertamos mal. A nossa norma é o improviso. E assim fica. O provisório em Portugal dura para lá da morte.


A Protecção Civil avisa. O telemóvel vibra a meio da noite. É um SMS a anunciar o fim do mundo. O povo lê. Encolhe os ombros. Vira-se para o outro lado. O desastre estrutural é silencioso. Não manda notificações. E os vinte e dois mil pedidos de apoio não são um grito de socorro. São um censo. Uma auditoria que ninguém encomendou a um país construído com fita-cola, ignorância e a crença inabalável de que a Nossa Senhora de Fátima desvia os anticiclones para Espanha. O português médio vive num estado de excepção permanente, mas só ganha o direito a queixar-se quando a velocidade do vento ultrapassa os cem quilómetros por hora e a televisão aparece para filmar as telhas no chão. A televisão valida a tragédia. Sem as câmaras, o fim do mundo é apenas uma valente chatice. 


O nosso erro é julgar que o desastre foi o temporal. O temporal foi apenas o inspector das finanças. Um inspector foleiro, rigoroso, implacável, e sem paciência para as desculpas do costume. A verdadeira tragédia já lá estava na terça-feira anterior, num dia de sol maravilhoso, quando aquela gente já vivia no limiar da ruína, à espera que uma rajada mais forte os empurrasse para o terno abraço do portal do estado.

O escândalo não é o vento levar o tecto. O escândalo é o Estado só reconhecer a existência daquela casa quando ela deixa de o ser. A fragilidade precisa de uma catástrofe homologada em Diário da República para existir aos olhos da lei. Sem temporal, a miséria é apenas um dado estatístico sem direito a subsídio. Fica escondida. Envergonhada. Atrás de uma parede recém-pintada. A tempestade limitou-se a fazer uma auditoria forense ao nosso deserto moral. O vento varreu a cosmética. Foi o único momento de verdadeira transparência nacional. A pobreza, de repente, viu-se vedeta de telejornal. Teve direito aos seus quinze minutos de fama. Março não destruiu nada. Limitou-se a destapar-nos a careca. A premiar a nossa pobreza, por breves instantes, com o estatuto de urgência nacional. Durante o resto do ano, e nossa ruína tem de se comportar com discrição. Tem de ser asseada. Tem de saber o seu lugar e não chatear.


Tudo isto acaba. É a suprema melancolia do tempo. O dinheiro dos apoios há-de chegar lá para Agosto. Quando o verão já tiver secado a humidade das paredes, e a urgência se tiver dissolvido na lentidão das secretarias. A nossa memória, elástica, é a arma mais poderosa do povo. O calor do verão derrete a memória do medo. E o português tem uma capacidade inesgotável para arquivar o seu próprio sofrimento. Esquecer é nosso o desporto de eleição. A única modalidade em que a pátria conquista vitórias regulares. E esquecer poupa muito trabalho. 

Depois, lá se irão comprar uns tijolos novos, trocar a lusalite por zinco, reforçar as juntas com silicone rasca da grande superfície de bricolage. E lá se irão fechar as marquises de alumínio, a rezar para que o próximo inverno seja manso. O vento passa. O Estado carimba a desgraça, transfere os fundos e lava daqui as suas mãos. A miséria regressa por fim ao seu estado natural. Deixa de incomodar a ordem pública, para apodrecer no seu recanto de sempre, escondida e dócil, até ao próximo alerta laranja.


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